O oceano não quer brilhar



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20 de fevereiro de 2020 - 20:00


O Carnaval chegou e com ele vem uma porção de eventos empolgantes e cheios de brilho para os amantes das fantasias. Não é só o consumo exorbitante de plástico, a quantidade de lixo produzido em cada bloquinho ou os desperdícios óbvios de artigos decorativos. É nesses períodos festivos que cada cidadão tem a oportunidade de exercitar sua responsabilidade social. Sabe aquela história das tartarugas marinhas que te comoveu e fez você comprar canudinhos de papel ou metal para findar a poluição no oceano? Então, essa história não terminou nos canudinhos, esse é apenas um capítulo dela e você precisa chegar até o fim do livro para combater, de forma mais satisfatória, a poluição dos oceanos. O próximo capítulo é sobre o glitter despejado na hidrosfera.

O  glitter atual consiste em porções coloridas de microplástico revestidas de por alumínio e duas camadas plásticas. Quando o indivíduo utiliza esse material para adornar o corpo, todo o resíduo é despejado no chão do banheiro durante o banho e essas micropartículas plásticas seguem ralo abaixo, sendo liberadas em rios e lagos, a partir do esgoto que será tratado. No entanto, as Estações de Tratamento de Água não possuem a capacidade de filtrar partículas iguais ou menores que 5mm (tamanho limite para ser considerado micro pela ciência), o que permite a passagem delas e o acúmulo nas águas terrestres, podendo ser ingeridas e filtradas por animais marinhos. 

Para Joel Baker, diretor do Centro de Águas Urbanas da Universidade de Washington, os prejuízos exatos da poluição por conta do glitter nos oceanos ainda são desconhecidos, visto que os materiais plásticos usados na fabricação são diversificados e isso dificulta um estudo específico e mais ágil. Todavia, como qualquer poluição, há prejuízos consideráveis e os malefícios ocasionados pelos microplásticos no planeta já são reconhecidos em grande parte, as tartarugas marinhas e seus vizinhos de mar sabem muito bem disso. Cabe à consciência coletiva, a que criou tags e correntes para a substituição dos canudinhos de plástico no país, repensar também a sua postura diante do uso inconsciente de glitter em suas fantasias neste Carnaval que se aproxima.

Nessa conjuntura, de acordo com Joe Coburn, um dos proprietários da fábrica de glitter RJA-Plastics GmbH, grande parte do glitter que circula no mercado tem a forma hexagonal, visto que esse formato é o que causa menor desperdício do material, ou seja, produz um maior rendimento, mostrando o capitalismo despreocupado com a poluição e fiel seguidor do lucro, mais uma vez. É dentro dessa mesma estrutura que se torna muitíssimo válido exigir que o Estado promova ações de conscientização e leis, pelo menos locais, para o uso limitado de canudinhos plásticos ou, ainda, que grandes empresas têxteis comprometidas com a pegada sustentável retirem de suas roupas fibras de poliéster, já que também liberam microplásticos no oceano. No entanto também é imprescindível exigir de si uma postura cidadã e sustentável, banindo o glitter sintético que costumamos espalhar pelo corpo e logo em seguida descerão ralo abaixo. Todas essas atitudes estão comprometidas com o meio ambiente, mas é hipocrisia defender algumas e praticar outras, assim como beira a ingenuidade acreditar que exercitar apenas uma dessas posturas resolverá todos os maiores problemas ambientais do mundo.

No mercado existem várias opções de glitter biodegradáveis que custam em torno de 20 e 25 reais, a começar pelos comestíveis, utilizados em bolos de pasta americana. É claro, sairão um pouco mais caro, mas é o preço que se paga para defender seus ideais. Além disso, a internet fornece tutoriais que disponibilizam o passo a passo para produzir o seu próprio glitter à base de açúcar ou de gelatina, algo bem mais acessível e sustentável. Isso sem falar das opções veganas feitas de celulose que se encontra em diversos sites na internet e lojas dessa linhagem. O Carnaval está na porta e traz com ele muito brilho e muita música, porém, depois de todas essas opções, só fica sem brilhar quem quiser e só polui ainda mais o oceano quem for irresponsável. Afinal, esse capítulo da história das tartarugas marinhas você já leu e deu mais um passo para combater a poluição nos oceanos. Seja consciente, brilhe sem contaminar os oceanos.