Evidências relacionais: as mudanças climáticas e os incêndios na Austrália



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28 de fevereiro de 2020 - 0:34


Mantendo um ritmo crescente desde setembro de 2019, os incêndios no maior país da Oceania causaram demasiados danos ao ambiente e à população. De acordo com os dados disponibilizados em matérias do site NEXO, foram mais de 100 mil pessoas desalojadas, 25 mortes, por volta de 80.000 km² em área devastada e, segundo cientistas, até meio bilhão de animais mortos. Muito foi dito a respeito de todas as consequências do alastramento do fogo nas mídias sociais e nos meios de comunicação, mas pouco discutiu-se acerca das causas e de como as mudanças climáticas, suscitadas pelo aquecimento global, somaram aos fatores locais para que esse desastre tivesse maior intensidade.

A Austrália recebe influência de dois oceanos, Pacífico e Índico, fica abaixo da linha do equador e tem clima variado ao longo do ano, sendo afetado pelo Dipolo do Oceano Índico e pelo Modo Anular Sul. O primeiro mede a diferença térmica entre as metades lestes e oeste do oceano, indicando que haverá menos chuvas no centro e no sul do país quando o valor é positivo, e mais chuvas em todas as regiões quando negativo. Enquanto que o seguinte define cientificamente o movimento norte-sul de um cinturão de vento que circunda a Antártida, o que explica a pressão atmosférica maior no sul, tornando o tempo mais seco, em resultado positivo e, em caso contrário, indica mais chuvas. 

Por receber diferentes influências, o tempo no país pode alterar expressivamente de um ano para o outro, oportunizando eventos climáticos extremos, como ondas de calor, inundações e até mesmo os citados incêndios, sendo naturais ocorrências no ecossistema local. Assim, a situação do extenso incêndio foi agravada em consequência do período correspondente à fase positiva do Dipolo do Oceano Índico e negativa do Modo Anular Sul, ambos favorecendo a seca. Paralelo a isso, os referidos ventos da Antártida envolveram-se com uma onda de calor em 2019 e levaram uma significativa quantidade de ar seco e quente ao sul do país, e a vegetação tornou-se mais vulnerável à inflamação diante dessas mudanças.

Além disso, as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global foram um dos impulsionadores do desastre em grande escala, intensificando todas as consequências dos incêndios para acima do nível esperado. Os cientistas do departamento de meteorologia do país já haviam alertado que o verão da Austrália seria excepcionalmente quente comparado a outros anos, aumentando 1,5 ºC em relação à média histórica de temperatura no país. Embora esse aumento esteja presente de forma semelhante por toda a extensão do planeta como resultado do agravamento do efeito estufa, as condições climáticas do país deram suporte para que as consequências desse problema se mantivessem em crescimento por tempo suficiente para que prejudicasse a vida, tanto animal quanto vegetal, no ambiente. Esses fatos evidenciam, infelizmente, a influência da crise climática na vivência dos cidadãos australianos, bem como devem permear outras nações uma vez que os meios de combate não forem implementados e executados, se não por todos, pela maioria dos governos.

Os incêndios na Austrália são diferentes dos ocorridos na Amazônia, representando respectivamente, um caso natural e outro antrópico. Enquanto o país da Oceania sofre com algumas consequências do aquecimento global, as queimadas na maior floresta tropical, onde mais de 20 mil hectares de mata foram varridos em 2019, segundo dados do INPE, auxiliam o problema ambiental à medida que lançam mais gases poluentes na atmosfera. Desse modo, a comparação entre as situações de dois ecossistemas diferentes mostra como o caso australiano compete não só a eles, mas a todas as outras nações, e o fato é a prova de que cuidar do nosso ecossistema é também cuidar dos outros, de forma que a prosperidade ambiental prevaleça na maior parte do planeta. Isso, mais do que nunca, é um bom motivo para exigirmos das políticas públicas que nos entregam ou deixam de entregar a cada ano.