Enchentes no Brasil: um lamento inevitável?



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21 de abril de 2020 - 23:00


Nós primeiros meses do ano 2020 os noticiários, como de costume no Brasil, começaram a falar de prejuízos e baixas relacionadas à ação das chuvas nas grandes cidades do país. São Paulo e Minas Gerais foram os estados mais afetados com as enchentes que desalojaram ou desabrigaram mais de 40 mil pessoas neste início de ano, de acordo com dados expostos pelo portal de notícias G1. Deslizamentos, desabamentos, inundações e queda de árvores são os principais problemas que tornaram a chuva uma vilã da população.

Em meio a tanto desastre, Sheilla Lobato, uma professora do Espírito Santo, buscou representar as causas das enchentes das grandes cidades do sudeste por meio de um poema. Intitulado “Lamento de um rio…”, cujo texto explicita a importância da preservação dos leitos de rios e a destruição ocasionada quando ocupações urbanas tomam lugares de várzeas, bem como são poluídos por resíduos sólidos. Apesar de abordar o transbordamento dos rios Guandu e Doce por vários municípios locais, o drama social se apresenta de maneira semelhante nos outros estados citados.

Há três fatores que provam que a lamentação do poema e as enchentes não são inevitáveis. O primeiro deles corresponde à ação antrópica em áreas de escoamento hidrográfico quando o nível de rios da cidade aumenta, uma vez que envolve construção de casas e até aterramentos de áreas que serviriam como escape para água de chuvas, principalmente por meio da drenagem do solo. Segundo Anderson Kazuo Nakano, professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), essas ocupações impedem que as águas sigam o curso ideal para chegarem aos rios da cidade, como o rio Tietê em São Paulo.

O segundo fator diz respeito à impermeabilidade do solo das grandes cidades, com quase todas as ruas asfaltadas e com calçadas de concreto, impedindo que qualquer tipo de escoamento ocorra com facilidade. Assim, o trabalho acaba sendo levado às galerias e córregos, que não estão preparados para o excesso de chuvas anuais. Isso nos leva a opiniões de arquitetos e urbanistas sobre o planejamento urbano de lugares como a grande São Paulo. Lucila Lacreta, que também é diretora do Movimento Defenda São Paulo, afirma que a solução seria um projeto voltado à promover a permeabilidade às ruas e calçadas e também impedir a construção de prédios em áreas que o lençol freático é próximo da superfície.

A terceira causa do problema mencionado temos é o acúmulo de resíduos sólidos nas ruas, os quais prejudicam ainda mais o escoamento nos bueiros e córregos no processo de passagem da água até o mar. Esse é o pilar mais falado do problema por ser responsabilidade da própria sociedade, que gera cada vez mais resíduo sem responsabilidade ecológica e ambiental.

Nesse sentido, o acúmulo de resíduos é o mais simples de ser alterado. Porém não há sensibilização, diálogos e práticas que de fato mudem o quadro de poluição atual. Por fim, a tristeza de cidadãos como a professora Sheilla permanece. Além disso, a conclusão infeliz de Lacreta sobre a dificuldade de melhoria no planejamento das cidades se mantém, já que os interesses econômicos sempre prevalecem sobre os ambientais.

Enquanto isso, segue o lamento que não é do rio. Mas também segue as intenções de quem luta para que os problemas abordados sejam extinguidos dia após dia, porque ainda há tempo.