Kamikatsu e a esperança brasileira



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11 de fevereiro de 2020 - 22:05


Você já imaginou viver em uma cidade que possui a capacidade de reciclar ou de reutilizar todos os resíduos produzidos? Uma cidade 100% comprometida com o meio ambiente é o desejo de muitos defensores da natureza e uma utopia para a maioria, se não para todas, das cidades brasileiras. Esse objetivo ousado foi estabelecido como meta a ser cumprida em 2020 por uma vila japonesa chamada Kamikatsu, na região de Shikoku, devido aos planejamentos do governo desde 2011, quando a quantidade de resíduos não reciclados já era mínima.

Kamikatsu possui apenas 1500 habitantes e não possui coleta seletiva. De acordo com a revista O globo, a ONG Zero Waste Academy ficou encarregada, apoiada pelo governo, de destinar os resíduos e orientar os seus produtores. A pequena quantidade de moradores tornou possível a execução de projetos que capacitaram a população para a separação e o destino adequado de todos resíduos sólidos em suas residências. Nesse sentido, conclui-se que tal medida exigiria um esforço coletivo em larga escala para ser aplicada ao Brasil, principalmente, devido aos seus mais de 200 milhões de habitantes, porém esta iniciativa  pode ser aplicável se instalada em âmbito municipal. É preciso engajamento governamental para que os cidadãos já conscientes não percam o ânimo e para que os inconscientes transformem-se.

Além  disso, o Brasil possui uma vantagem etária em relação a Kamikatsu, visto que, segundo informações cedidas à Superinteressante, a população dessa vila apresenta uma idade, predominantemente, superior aos 65 anos, o que dificulta qualquer alteração no pensamento, nos conceitos já formados e enraizados, tornando a conscientização ainda mais difícil. No caso do Brasil, que possui uma pirâmide etária jovem, seria uma transformação a longo prazo, mas possível, que partiria das crianças em formação. 

Em 2019, a vila japonesa conseguiu enviar para as incineradoras somente 19% dos resíduos sólidos, conforme divulgado nas mídias sociais. Toda a matéria produzida com o consumo dos moradores é dividida em categorias e recebem seus fins adequados, como por exemplo, os resíduos orgânicos que separa os restos de vegetais e de animais, usando o primeiro na compostagem e o segundo sendo incinerado por não possuir fim mais adequado. Dentro desse aproveitamento citado, ainda, as pessoas dessa cidade foram incentivadas a administrarem em suas respectivas casas uma composteira, a qual é vendida com desconto nas casas de jardinagem da região, em virtude dos subsídios governamentais. Nessa conjuntura, são medidas pontuais e detalhadas que permitem o progresso dessa meta que parece ousada.

O maior desafio para cumprir o objetivo de Kamikatsu é o tratamento do plástico, visto que é um material cada vez mais utilizado para embalar e compor diversos tipos de produtos, além de contaminar o ambiente com suas micro partes, o que o torna ainda mais assustador. No entanto, os projetos implementados na vila abrangem ações tanto na redução da produção de plásticos como também nos resíduos oriundos destes. Tal medida que está sendo adotada é a mais eficaz, de acordo com o diretor do aterro, Kazuyuki Kyiohara.

 A realidade dessa vila não deveria ser utopia para país nenhum, desde que se respeite o longo prazo das ações. Todavia não se pode negar que a infraestrutura  necessária para executar projetos de reciclagem e de reuso é a base para desenvolver o manejo ambiental correto. Permitir que a matéria seja retirada da natureza, utilizada pelo ser humano e devolvida ao seu habitat para novos usos, é capaz de evitar o desgaste e a exploração desenfreada da natureza e suas matérias primas. Por isso, o Brasil pode aprender com esse exemplo, polarizando alguns municípios em torno de um aterro sanitário e orientando, em sala de aula, as crianças a serem cidadãos comprometidos com o meio ambiente, que coletem, limpem e destinem de forma correta todos os resíduos sólidos produzidos por elas e por suas famílias. 

Isso é autonomia desenvolvida em prol de uma causa maior que envolve uma cadeia alimentar inteira e o equilíbrio da natureza; é ser ético e justo com quem sempre nos ajudou a desenvolvermos nossas necessidades vitais e tecnológicas. Em contrapartida, essa fonte nunca foi tratada com o devido respeito, pelo contrário, colhemos bonança e devolvemos problemas ambientais, principalmente no que se refere às poluições causadas pelo excesso ou pelo tratamento inadequado dos resíduos sólidos.