Derramamento de petróleo no Nordeste: entenda o mistério



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11 de dezembro de 2019 - 20:00


Grande parte do petróleo explorado no mundo é de origem marítima, isto é, extraído de rochas sedimentares no fundo dos oceanos. Esse tipo de atividade econômica é altamente perigosa para todo o ecossistema marinho, uma vez que qualquer falta de fiscalização, rompimento do maquinário, pressão extra exercida sobre os tubos de extração, transbordamento dos barris de coleta ou o simples despejo inadequado da água utilizada para lavagem do maquinário de extração tem a capacidade de afetar o equilíbrio das espécies que vivem em tal ambiente. Por esse motivo, infelizmente, é comum ocorrer um vazamento de óleo nos oceanos, embora as tecnologias estejam cada vez mais modernas, ainda há falhas na fiscalização e na conduta de muitas empresas. 

Em outubro de 2019, os noticiários não mediram esforços para denunciar mais um crime ambiental cometido em território brasileiro, porém dessa vez ainda não se tem certeza de quem foi o autor do crime. Nesse contexto, de acordo com o Estadão, o vazamento se deu a cerca de 2 mil quilômetros da costa brasileira e contaminou os 9 estados nordestinos. As investigações recentes da Polícia Federal descobriram que o petróleo encontrado na costa brasileira é venezuelano e não foi explorado pelo Brasil.

As amostras coletadas apontaram que o material recolhido é de óleo Merey 16, como divulgado no site do G1, um tipo de petróleo cru -ainda não refinado, por isso mais denso- existente no Cinturão de Orinoco, na Venezuela. Além disso, após rastreamento da movimentação de petrolíferos de julho para novembro, período em que ocorreu o vazamento, descobriu-se que o provável responsável é o petroleiro grego Bouboulina. Sendo o Merey 16 mais denso, ele não fica acumulado na superfície dos mares, como a maioria dos óleos derramados por petroleiros, o que dificulta a identificação do vazamento e o tratamento de tal desastre ambiental.

É comum que entre as técnicas utilizadas para diminuir os impactos ambientais resultantes desse problema, utilize-se um dispersante para tornar menos insolúvel o óleo e facilitar a sua degradação por agentes decompositores ou barreiras físicas para queimá-lo sobre o mar mesmo, todavia, quando esse poluente está misturado nas diversas camadas de água, torna-se mais difícil conseguir uma eficácia nesse tratamento. Segundo Ronaldo Gonçalves, professor de engenharia química no Centro Universitário FEI e especialista em análise de petróleo, o óleo mais denso é mais tóxico que o leve e conforme entra em contato com a areia, o tempo necessário para retirá-lo da área torna-se bem maior, além das chances reduzidas de total sucesso. No caso do nordeste brasileiro, as ações de combate começaram a multiplicar-se somente após o aparecimento de manchas negras na areia das praias.

O petróleo é uma mistura de hidrogênio, carbono e metais pesados, o que o torna extremamente nocivo para os seres vivos, visto que além de se espalhar pela superfície marinha, sombreando as profundezas e impedindo a entrada de luz para a realização da fotossíntese dos fitoplânctons, ele se acumula ao longo da cadeia alimentar em casos mais complexos (como o tratado) por meio da magnificação trófica. Os metais pesados podem provocar, quando acumulados por muitos anos e em grandes quantidades no organismo humano, problemas renais, lesões cerebrais, aumento da pressão arterial e até mesmo alguns tipos de câncer. É por esse motivo que se torna, extremamente, preocupante o crime ambiental em questão que afetou o Nordeste, pois parte das espécies que ali vivem e servem de alimento para os seres humanos, podem intoxicar direta ou indiretamente a nós e às demais espécies, como um verdadeiro efeito dominó.

Não há mais a possibilidade de eliminar todas as consequências do vazamento de petróleo venezuelano pelo petroleiro grego Bouboulina (ao que tudo indica), mas há como punir de maneira exemplar os verdadeiros responsáveis por esse crime e utilizar todas as possibilidades tecnológicas para reduzir os impactos ambientais previstos e os que já estão acontecendo. No entanto é dever nosso, cidadãos brasileiros, pensar a respeito e exigir do então presidente as devidas providências. É questão de saúde pública, por mais que, superficialmente, não pareça, mas os pescados e frutos do mar consumidos no Nordeste e no Norte já estão ameaçados antes de chegarem a sua mesa e saiba que metais pesados não podem ser destruídos e nem retirados com qualquer solução de limpeza.