As duas faces da indústria farmacêutica



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23 de agosto de 2019 - 8:00


A indústria farmacêutica é um dos tipos de indústria com os maiores índices de crescimento no Brasil e, consequentemente, o impacto deixado é perceptível desde a década de 90, intensificando-se na atualidade. Nesse contexto, pesquisas recentes mostraram que o uso de medicamentos comuns por humanos tem afetado o meio ambiente ao serem excretados pelo organismo.

De acordo com estudos da Universidade de York na Inglaterra, publicados pela BBC, medicamentos como analgésicos, antibióticos, antidepressivos e anticoncepcionais são as principais categorias de medicamentos nocivos à natureza. Isso porque parte das substâncias ingeridas são eliminadas pelo corpo, principalmente pela urina, e despejadas na hidrosfera pelo esgoto sem tratamento adequado ou, mesmo, diretamente pelo corpo humano. As quantidades eliminadas são mínimas se comparadas à concentração real no indivíduo, porém para exercer influência nas demais espécies é necessária uma porcentagem muito menor, o que tem afetado muitos ecossistemas aquáticos.

Ainda na década de 90, o biólogo John Stumper (da Universidade de Brunel, na Inglaterra) descobriu uma quantidade de estrógeno acima do normal em algumas espécies de peixes, o que determinou características femininas em peixes machos, mas não foi identificada nenhuma característica masculina em peixes fêmeas, sendo confirmado, após análise da água, uma quantidade hormônios sintéticos solubilizada no rio. Além disso, estudos de Kathryn Arnold, da Universidade de York, detectaram mudanças de nicho ecológico por parte de algumas aves, inclusive os estorninhos, pois sendo aves aquáticas, isto é, animais de topo das teias alimentares aquáticas, costumam buscar alimento próximo às estações de tratamentos de água ou em rios, o que, por sua vez, devido à influência de antidepressivos como o Prozac reduziu o número de refeições dessas aves. É inevitável que esses impactos afetem a cadeia alimentar, pois as diversas teias se encontram interligadas e algumas espécies podem sumir, acentuando o desequilíbrio.

As consequências ambientais supracitadas são um reflexo do uso abusivo de medicamentos e da crescente indústria propagandística farmacêutica, porque no país em que, de acordo com o Conselho Federal de Farmácia (CFF), das 77% das pessoas que se automedicaram no primeiro semestre de 2019, 50% ingeriram analgésicos e 42% consumiram antibióticos, ambos contribuintes para o agravamento de tal impacto ambiental. Sabe-se que os avanços farmacêuticos mundiais possibilitaram o controle de muitas enfermidades antes fatais, todavia, em contrapartida, o ego humano e indução fizeram eclodir um novo problema, agora as pessoas podem perder a vida por uso excessivo de drogas farmacológicas, além de colocar em risco outras inúmeras espécies.

Por isso, é fundamental que o CFF repense medidas empresariais que combatam o excesso desse tipo de consumo e, consequentemente, seus impactos. Compreender a necessidade e executar a consciência sustentável, assim como, principalmente, as ações que garantem um amanhã às atuais e às futuras gerações, é um dever de todos.