Amazônia em chamas: Do dia do fogo ao desmonte da Política Ambiental Brasileira



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27 de agosto de 2019 - 20:00


O Mosaico de Ravena foi sábio, infelizmente, ao escrever: “Região Norte: ferida aberta pelo progresso, sugada pelos sulistas e amputada pela consciência nacional”. Após todos os grandes veículos midiáticos noticiarem o “Dia do Fogo”, na Amazônia, grandes mobilizações virtuais começaram a eclodir no país e até na Europa. No entanto, por trás de toda essa mobilização, há um poço mais fundo que precisamos conhecer e refletir criticamente.

O dia 19 de agosto foi o estopim para as preocupações começarem, pois às 15h:30min o céu da região sul paulista ficou alaranjado e, em poucos minutos, acinzentou-se, o que provocou a propagação da notícia de que as queimadas na Amazônia enviaram uma camada de fumaça pelas massas de ar que encobrem o Brasil central. Todavia, a massa de ar atuante nessa região é a Equatorial-Continental, mas esta perde força durante o inverno, o que impossibilita sustentar tal teoria. Na verdade, segundo os meteorologistas do Clima Tempo, o céu amarelou por conta da intensificação de queimadas na Amazônia e escureceu, bruscamente, em virtude da chegada de uma massa de ar frio originária do sul do continente que se uniu com uma nuvem baixa, com cerca de 12km de altura, gerando uma névoa sobre a capital paulista. Sem dúvida alguma, a natureza virou o sujeito da relação homem-natureza e disse a todos os brasileiros que apesar de poder acabar com a espécie humana em horas, ela está sendo destruída de forma desproporcional e inacreditável. Seria um pedido de socorro?

Nessa mesma conjuntura, os alertas de aumento no número de queimadas na Amazônia, divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), já estavam sendo reproduzidos pela mídia nacional, o que provocou a exoneração de Ricardo Galvão, o então presidente do Instituto. Tais alertas expunham o aumento de cerca de 82% no número de casos de queimadas registrados entre janeiro e agosto de 2019, comparado com o mesmo período de 2018. Os estados mais afetados com esse alastramento descontrolado do fogo são Mato Grosso do Sul, Rondônia e Pará, sendo Altamira e Novo Progresso as cidades onde iniciou o “Dia do Fogo”, às margens da BR-163 (Cuiabá-Santarém), ato combinado via Whatsapp por fazendeiros, grileiros, sindicalistas e comerciantes que formaram um grupo com mais de 70 integrantes responsáveis por essas queimadas, os quais já começaram a ser ouvidos pelo delegado Daniel Mattos Pereira, da Polícia Civil, a pedidos do Ministério Público de Novo Progresso, entretanto, até o momento ninguém foi preso. 

O presidente Jair Bolsonaro alegou que os incêndios foram provocados por ONGs na Amazônia, afirmação intensamente criticada pela imprensa internacional. O então presidente, na melhor das hipóteses, talvez tenha deturpado um discurso a respeito dos principais acusados, uma vez que há acusações sobre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade como um dos responsáveis pelas práticas destruidoras na Amazônia. Reflita, não é o Instituto e sua ideologia que está sendo acusada de tal crime, mas alguns de seus integrantes já acometidos pela corrupção, visto que o ICMBio é uma autarquia especial ligada ao Ministério do Meio Ambiente e ao seu gestor Ricardo Salles, réu por crimes ambientais. Portanto, ou houve um cruzamento de ideias despercebido que vai muito além das palavras vergonhosas proferidas pelo presidente da república, ou o inominável realmente tentou falar a verdade: não foi um órgão ligado ao governo que iniciou o “Dia do Fogo”, mas sim toda a estrutura formada por trás da esfera governamental, a  parte não governamental que, ilegalmente, possui contato direto e obedece ordens dos interesses de uma bancada ruralista e de todos os seus coligados.

Em 2019, a Floresta Nacional do Jamanxim, região que deveria ser de uso sustentável, é onde está concentrado o maior número dos focos de queimadas registrados nos últimos meses e perdeu a estrutura de fiscalização a qual era articulada entre IBAMA, Polícia Militar do Pará e Força Nacional, isso porque houve corte de verbas do IBAMA em 25%, no mês de abril de 2019, além dos cortes internacionais feitos por países como Alemanha e Noruega, os principais investidores em projetos de conservação na Amazônia, provocados pelas relações diplomáticas cada vez mais comprometidas do Brasil com o exterior. A nação brasileira segue em chamas com a Amazônia, mas em chamas figuradas por todas as atrocidades que os três poderes estão praticando contra o país. A sustentabilidade está cada vez mais insustentável com as políticas e com os crimes ambientais que eclodiram nesses últimos anos.

As duas semanas de queimadas históricas na Amazônia são parte do crime ambiental que precisa ser repudiado por todo cidadão brasileiro, em nome de qualquer projeto ou existência sustentável. É dever do povo brasileiro cobrar explicações e intervenção governamental nos casos supracitados, pois a Amazônia não é o pulmão do mundo, mas é responsável pelo equilíbrio de boa parte dele, indo além, física e metafisicamente, das fronteiras de uma Amazônia legal.

Conservar a floresta é assegurar a existência humana e de todas as atuais teias alimentares por mais longos anos, garantindo a existência harmônica das demais gerações. Portanto, é fundamental mobilizar sua razão e ações em combate a essa degradação e em prol da justiça, porque a biodiversidade desse bioma encontra-se extremamente ameaçada, além de estar ardendo neste exato momento, queimando os cascos de árvores e de animais até o seu último fôlego de agonia e de resistência. O futuro sustentável depende de cada um de nós e precisa começar agora.