Água é vida, não a deixe escapar



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4 de setembro de 2019 - 20:25


Os conflitos pela posse e pelo direito bem estabelecido de uso da água são uma realidade crescente no mundo e no país, motivo de algumas guerras e de muitas mortes, inclusive. Essa luta que envolve indivíduos, tanto miseráveis, quanto ricos, é uma projeção do estresse hídrico e do desperdício ocasionados pela espécie humana. O progresso do domínio tecnológico pós-Primeira Revolução Industrial possibilitou o aprimoramento de algumas técnicas e a demanda cada vez maior por água no processo produtivo foi a herança.

No Brasil, anualmente, cada habitante usa em média 175L de água, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o que corresponde a 11 vezes a quantidade anual utilizada por cada cidadão angolano, enquanto nos Estados Unidos da América (EUA), o líder mundial nesse ranking, utiliza 585L per capita. A desigualdade é visível, sabe-se que em partes pela disponibilidade natural, mas em sua maioria o acesso é comprometido pela degradação, já que os EUA exploram diversas outras nações para sanar sua demanda energética e manter o consumo padrão. 

Em 2013 foi aprofundado o estudo, em solo brasileiro, da maior reserva de água doce do mundo, o Aquífero Alter do Chão-hoje renomeado de Sistema Aquífero Grande Amazônia, localizado entre os estados do Pará, Amapá e Amazonas, com uma capacidade quadruplicada em relação ao Aquífero Guarani. Em contrapartida, em 2014, o Sistema Cantareira em São Paulo passou por uma de suas mais fortes crises hídricas devido ao desmatamento na Amazônia que reduziu drasticamente a quantidade de rios voadores e à poluição hídrica no Brasil que reduz a potabilidade do recurso. Nessa conjuntura, o estresse hídrico, de acordo com a ONU, ocorre quando a quantidade de água utilizada é maior que a quantidade de água capaz de ser devolvida ao meio ambiente e, a partir do momento que essa diferença é superior a 30% da quantidade gasta, a situação é agravada, reduzindo a quantidade disponível e encarecendo acesso a tal recurso natural.

O País com as maiores reservas de água no mundo, convive lado a lado com secas periódicas, isso não é coincidência ou simples desigualdade distributiva, mas um reflexo da estrutura capitalista que ainda é regida, principalmente nos sertões brasileiros, por oligarquias controladoras do acesso à água, a exemplo dos fazendeiros do médio e baixo São Francisco beneficiados pelas obras públicas de transposição deste. Na Amazônia, simultaneamente, a água não é escassa em quantidade, mas extremamente poluída em suas porções superficiais, o que, em decorrência da falta de saneamento básico universal, dificulta a acessibilidade à água de qualidade, como registrado em boa parte do Marajó. Portanto, o poder do capital dos grandes proprietários do interior do Brasil dificulta o acesso dos pequenos proprietários à água redirecionando-os, muitas vezes, para áreas periféricas com condições inadequadas de acesso à  água, possibilitando novas e maiores poluições. É preciso acessibilizar tal recurso.

A cultura da fartura no Brasil é um debate que cresce no país, pois acredita-se que a crença geral de o território ser detentor de muitas matérias primas e recursos naturais não dimensiona a finitude destes, o que possibilita o uso desenfreado. Além disso, grande parte da água utilizada no processo produtivo não é vista, o que foi classificado pelo holandês Arjen Hoekstra como água virtual; segundo ele, a nação brasileira é a quinta maior exportadora de água virtual, o que pouca gente sabe. Em virtude do crescimento nacional, não é viável impedir tal uso de água no processo produtivo, mas é necessário promover uma utilização mais eficiente, investindo na reutilização e na reciclagem, pois assim a água poderá retornar à cadeia produtiva sem ser eliminada de forma comprometedora, mas para isso é preciso investir em tecnologia.

O saneamento básico é uma garantia legislativa ainda pouco assegurada, de fato, às comunidades mais carentes e populosas do país, capaz de potencializar a preservação da potabilidade e o prolongamento do usufruto de várias reservas hídricas. Por isso, cabe ao Estado elaborar estratégias de fiscalização para possibilitar o acesso mais justo e saudável à água, combatendo o mandonismo local e a poluição capaz de promover grandes conflitos em áreas ricas desse recurso, algo que acontece nos confins do país e já provocou a guerra dos Seis Dias, no Oriente Médio, em 1967, pela posse do Rio Jordão. É a partir desse cenário mundial que cada cidadão necessita perceber o seu lugar como agente na necessidade de preservar as reservas de água nacionais, a fim de garantir um uso sustentável, o progresso econômico e a vida dos futuros 250 milhões brasileiros. A vida depende da água para tudo e desperdiçá-la é reduzir pouco a pouco, de forma cada vez mais intensa, a existência humana.